Nua

Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.
(Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.
Mas a noite é nua
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite
Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal
Teus exíguos
_ Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos _ Brilham).
Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!
Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido
Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto,
Baixo num mergulho
Perpendicular.
Baixo até o mais fundo
Do teu ser, lá onde
Me sorri, tu'alma
Nua, nua, nua...
Manuel Bandeira (Poeta recifense, 1886-1968)

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