Se Me Esqueceres





Quero que saibas
de uma coisa.

Sabes como é:
se olho a lua de cristal, o ramo vermelho,
do lento outono à minha janela,
se toco junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrrugado corpo da lenha,
tudo me leva pra ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
até as tuas ilhas que me esperam.


Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.


Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já tereis esquecido.


Se julgas que é vasto e louco
o vento das bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.


Porém se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
aí meu amor, aí minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.




Pablo Neruda, (Prêmio Nobel de literatura em 1971, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda".












Comentários

  1. Em mim todo esse fogo se repete,
    em mim nada se apaga nem se esquece.

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