quarta-feira, janeiro 08, 2014

Poesia em Prosa: Tão Longe Que Estavas Dentro de Mim



Sou imperfeito com todas as qualidades
Que só você vê em mim
Você é perfeita com todos os defeitos
Que só eu não vejo vejo em você
Pobre mortal cheio de sentimentos imortais
Como você diz, tenho que me contentar
Com fragmentos de você
Nenhum amor pode ser acusado de exagerado
Se não se ama em demasia, não é amor
Te amar à distancia, sem nunca te ter visto
Ter saudades do que nunca tive
Me fez perceber que amo mais que deveria
E por te amar, escolhi ficar só
Ó ingrato coração de poeta
Inescrutável e afetuoso
Que escolhe sem me consultar
Que prefere amar sem sentir tesão
Que sentir tesão sem amar você
Quem não sabe do meu coração,
E, só eu sei, me acham louco
Seria amor, se não fosse louco?
Iludidas  pessoas das minhas cercanias
Que me olham sorrindo
Não sorrio por elas, sorrio
Porque fecho os olhos e vejo você
Por isso viajei pra tão longe
Tão longe a ponto de me aproximar
Ainda mais de você!
Tão longe que estavas dentro de mim
Parece até que não haveria amor sem distância
E que proximidade demais pode gerar desamor...
Saiba que eu te namoraria todos os dias
E te possuiria todas as noites
Casaria com teus sorrisos
Sorrisos que fazem minha roupa cair
Casaria com teus abraços
Abraços que me roubam as Leis de Newton
Casaria com teu silêncio
Silêncio tão significativo
Que diz tudo que eu queria ouvir
Pois ha quem fale demais
E não me diga nada
Acharia graça da tua falta de humor
Porque estou farto, cheio de amores vazios
Quero amores loucos pra me sentir normal
Tô cheio de corpo malhado em cabeça oca
Sorriso fácil , porque fútil
Estou cheio de rostos lindos sem nenhum saber
Quero conteúdo, quero a cultura
Quero a poesia, que só encontro em você!


Raimundo Freire

terça-feira, janeiro 07, 2014

Versos de Amor A um Poeta Erótico - Augusto dos Anjos



Parece muito doce aquela cana. 
Descasco-a, provo-a, chupo-a... ilusão treda! 
O amor, poeta, é como a cana azeda, 
A toda a boca que o não prova engana. 

Quis saber que era o amor, por experiência, 
E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo, 
Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo, 
Todas as ciências menos esta ciência!

Certo, este o amor não é que, em ânsias, amo 
Mas certo, o egoísta amor este é que acinte 
Amas, oposto a mim. Por conseguinte 
Chamas amor aquilo que eu não chamo.

Oposto ideal ao meu ideal conservas. 
Diverso é, pois, o ponto outro de vista 
Consoante o qual, observo o amor, do egoísta 
Modo de ver, consoante o qual, o observas.

Porque o amor, tal como eu o estou amando, 
É Espírito, é éter, é substância fluida, 
É assim como o ar que a gente pega e cuida, 
Cuida, entretanto, não o estar pegando!

É a transubstanciação de instintos rudes, 
Imponderabilíssima e impalpável, 
Que anda acima da carne miserável 
Como anda a garça acima dos açudes! 

Para reproduzir tal sentimento 
Daqui por diante, atenta a orelha cauta, 
Como Mársias -- o inventor da flauta -- 
Vou inventar também outro instrumento! 

Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo 
Ambiciono, que o idioma em que te eu falo 
Possam todas as línguas decliná-lo 
Possam todos os homens compreendê-lo. 

Para que, enfim, chegando à última calma 
Meu podre coração roto não role, 
Integralmente desfibrado e mole, 
Como um saco vazio dentro d’alma!

Augusto dos Anjos (Eu e outras poesias, L&PM Pocket, p.75)

sexta-feira, dezembro 27, 2013

Sugestão de Leitura: Oscar Wilde - Biografia



Acabei de ler e recomendo a biografia do genial escritor irlandês Oscar Wilde, expoente da literatura inglesa do período vitoriano, um ser completamente ávido por transgressão, paradigma vivo da insondável profundeza da alma, escrita por Daniel Salvatore Schiffer, tradução de Joana Canêdo, pela editora L&PM POCKET.

Oscar Wilde viveu 46 anos para o prazer. Conheceu a glória e a decadência, a riqueza e a pobreza. Gênio precoce, primeiro da classe no ensino fundamental e médio, primeiro da classe em Oxford, poliglota, orador brilhante, poeta e dramaturgo de sucesso. Oscar era um mestre em criar frases requintadas de cinismo, ironia e sarcasmo.

Seu único romance "O Retrato de Doryan Gray" (1890), é uma obra sublime sobre a corrupção da alma. Dândi por excelência, seus cabelos escuros divididos ao meio, o paletó de veludo, a bengala e os sapatos de verniz se tornaram sua marca registrada. Oscar Wilde é o autor do famoso poema "A Balada do Cárcere de Reading".

Arguto observador e crítico da burguesia vitoriana, lapidou alguns dos mais espirituosos aforismos da língua inglesa. A condenação por atentado ao pudor foi um golpe em sua vida. os dois anos de trabalhos forçados passados na prisão, que deram origem a "De profundis", arrasaram sua saúde. Falido, repelido pela mulher e por Bosie, seu amante, Wilde sucumbiu. Só lhe restou a glória literária.

Assim, em 30 de novembro de 1900, o genial e extravagante Oscar Wilde, um dos maiores escritores do século XIX, senão de toda a história da literatura mundial, morreu aos 46 anos, em meio aos piores sofrimentos, na miséria absoluta, num quartinho decrépito e gelado de um sórdido hotel parisiense.

quinta-feira, dezembro 12, 2013

Poesia em Prosa: A Garota e o Tempo



Os sentimentos de tempo precisam
Precisam de tempo para acontecer?
Porque os sentimentos não nos avisam
Chegam assim, sem amadurecer?
Sentimento é fruto verde, é fruto proibido
Incontestável chama da nossa libido.

A admiração por uma pessoa não precisa
De um cronômetro, relógio que avisa
A hora ideal para acontecer
Chega, nasce, só faz crescer
É um querer que invade e arrebata
É um encanto, é uma sede abstrata
É dar sem precisar receber

O desejo por uma mulher
Aquela que se sonha e se quer
Precisa de tempo para eclodir?
Não sabes que desejo entra sem pedir
Entra como uma onda marota
No teu coração de garota
Não espera nem noite, nem dia
É transmissão de pensamento é sintonia

A felicidade precisa de um dia certo?
Se quem você quer não está perto
Porque tem que ser assim?
Você é perfeita perfeita para mim
Com esse teu cheiro de gente
Que luta, que diz o que sente
Gente que sente o que diz
Não há dia para ser feliz.


Raimundo Freire





sábado, dezembro 07, 2013

Poesia em Prosa: Entre Gaivotas, Corujas e Gaiolas




Dizem que os olhos são espelhos da alma
Os teus, são o reflexo da minha alma
Neles eu me encontrei e te achei
Vi a ternura que andava em mim escondida
Vi a alegria de menino, incontida
Vi a meiguice brejeira da carioca
Com esse olhar que muito provoca
Vi o doce sorriso da encantadora natalense
Vi a  dança faceira da maranhense

Gaivotas, corujas, gaiolas opressoras
Tatuagens significativas, libertadoras
Um conjunto que tem sido inspiração
Revelando a grandeza do seu coração
Uma mulher que ainda se diz comum
Merece respeito, não é pra qualquer um.

Olhos esmeraldinos encantadores
Como os verdes mares cearenses
Olhos que escondem muitas dores
De equivocados, precoces amores
Lágrimas de mãe, lágrimas de tristeza
Nem as dores escondem a tua beleza
De rainha do meu idílico castelo
Que pra te esperar se fez belo

E nesse verde mar dos teus olhos
Emoldurado pela beleza inconteste
Do teu sorriso de mulher do agreste
Boquiaberto, em silêncio, contemplei
Tomado de emoção, então chorei
Segurei tua mão, conte comigo
No meu peito só restará teu abrigo.


Raimundo Freire.








quinta-feira, novembro 21, 2013

O Amor Que Não Ousa Dizer Seu Nome (Soneto XXXII)



“O Amor que não ousa dizer seu nome”
Bateu-lhe à porta ao acaso, um dia.
E ele, inebriado pela cotovia
(que paira à janela, mas depois some...),

sentiu crescer, súbito, na alma, uma fome
de algo que, até então, desconhecia.
Desejo... estranheza... culpa... agonia...!
Desce aos umbrais, na angústia que o consome.

...porém, depois das lágrimas enxutas,
chamou a cotovia, deu-lhe frutas,
e sorveram, um no outro, a própria essência.

E ambos, nessa atração de semelhantes,
Num cingir de músculos, os amantes
Ergueram-se aos portais da transcendência.



Oscar Wilde

quinta-feira, novembro 14, 2013

Poesia em Soneto: Vencedor - Augusto dos Anjos (1844-1914)



Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E á rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração – estranho carniceiro!
Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
Nenhum pôde domar o prisioneiro.
Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois de um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,
Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem…
E não pude domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta!


Augusto do Anjos (Eu e outras poesias, L&PM Pocket, p.86)

segunda-feira, novembro 04, 2013

Sugestão de Leitura - O Retrato de Doryan Gray - Oscar Wilde



Acabei de reler o único romance do genial escritor irlandês Oscar Fingall O'Flahertie Wills Wilde, mais conhecido como Oscar Wilde, sua obra prima O Retrato de Dorian Gray.

Dorian Gray era um um jovem londrino de rara beleza, um verdadeiro Deus Grego na acepção da palavra, tanto que serviu de modelo para que o talentoso pintor, e apaixonado por Dorian, Basil Hallward, o pintasse em uma tela extraordinária que, de tão perfeita, levou o próprio Gray a se apaixonar pela própria pintura.

Influenciado por Henry Wotton, um crítico social da era vitoriana, aristocrata cínico e defensor do hedonismo, o até então ingênuo Dorian Gray começa a levar uma vida dupla de prazeres homo e heterossexuais pelo guetos e pela High Society londrina.

O raposa velha do Henry Wotton deturpa tanto a mente de Dorian que este trata com desdém até o suicídio de Sibyl Vane, o primeiro grande amor de Dorian, uma jovem atriz que interpretava personagens shakespeareanos em um teatro de terceira categoria.

Com o passar dos anos Dorian permanece jovem, enquanto o seu retrato envelhece, fica enrugado e mostra todos os sinais dos pecados e da vida dissoluta de Dorian. Todas as mágoas, as dores, as contrariedades, os crimes de Dorian são retratados pelo seu quadro que fica escondido no sótão de sua mansão, para que ninguém descubra seu segredo: o retrato captou e reflete sua alma.

O retrato de Dorian Gray é uma obra-prima que reflete o brilhante frasista que Oscar Wilde era e sua completa aversão às convenções sociais da Inglaterra do século XIX. Embora seja um retrato da decadência moral, é uma enredo profundamente filosófico que nos leva a refletir sobres os porquês da vida. 

Recomendo que leiam cada parágrafo com atenção, pois não é uma leitura fácil; é um texto cheio de argumentos e tem que ser digerido com calma para não se perder o foco no enredo.


Raimundo Freire.

sexta-feira, novembro 01, 2013

Crônica: Você Está Namorando?




Uma amiga minha, obviamente sem nenhum interesse, me veio com essa pergunta assaz perturbadora: você está namorando? A resposta foi automática e indubitável: sempre! Sim porque invariavelmente associamos a palavra namorar com o relacionamento entre duas pessoas, no sentido de cortejar, de arrastar a asa por alguém, mas nem sempre é assim!

Existe um algo mais que transcende o simples ator de cortejar, falo do enamorar-se, enamorar-se no sentido amplo, de apaixonar-se, encantar-se por algo, ou por alguém. Veja bem, eu disse "algo", isso implica que podemos nos encantar por objetos ou coisas, não necessariamente  por pessoa. Talvez por isso haja tanta confusão e tem gente que se apaixona por coisas e não por pessoas, ou o que é pior, apaixona-se pelas coisas que a pessoa tem..

Sou obrigado a confessar que sou um enamorado convicto, de carteirinha mesmo, sou enamorado pela vida, pelo milagre de estar vivo, respirando os doces aromas que a vida oferece, com saúde para trabalhar, pelo dom de poder falar com meus amigos, pela alegria de fazer caminhadas na praia, pela magia de mergulhar nos meus livros, pelo impagável prazer de ver a alegria no sorriso de meus filhos, ou no sorriso dos meus pais, no abraço de um velho amigo.

Então sim, eu namoro, namoro sempre, namoro o por do sol, namoro a poesia, namoro escrever, namoro aguar o meu jardim, namoro o cheirinho bom do meu carro, namoro o cheirinho de livro novo, namoro a minha casa limpinha, namoro a chuva, namoro o por do sol, namoro o canto dos pássaros, namoro o time do meu coração, namoro sempre, namoro até a minha namorada, porque sem abraços, sem beijos, sem sorrisos, a vida não teria a menor graça.

Só não aconselho que você namore sem antes enamorar-se. Não seja um dileto praticante da filofobia. Quando se toca o corpo antes de tocar a alma nasce a ilusão e quem acredita em ilusões tem que se acostumar a conviver com a dor da solidão. O corpo que você namora vai envelhecer, vai murchar; mas a alma, o caráter, a gentileza e o carinho da pessoa que você se encanta, se apaixona, se enamora, isso sim, você vai levar para toda a eternidade.

Namore, mas antes enamore-se. Enamore-se, mas antes enamore-se por si mesmo. Seja feliz com a própria vida, com as próprias pernas, com ou sem namorado(a), seja feliz. Pois, namoro nem sempre é sinal de felicidade, ao contrário, pode ser sinal de muita dor de cabeça. Afinal, Você namoraria a alguém que não namoraria a si mesmo(a)?



Raimundo Freire.



sexta-feira, outubro 18, 2013

Poema: Canção



Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Meireles

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Que acredite nos teus sonhos e projetos, Quem não acredita nos teus sonhos, Não é digno de subir a bordo deles... Que já esteja de malas pro...

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