Desejo



Quero-te ao pé de mim na hora de morrer,
Quero, ao partir, levar-te, todo suavidade,
Ó doce olhar de sonho, ó vida dum viver
Amortalhado sempre à luz duma saudade!

Quero-te junto a mim quando o meu rosto branco
Se ungir da palidez sinistra do não ser,
E quero, ainda , amor, no meu supremo arranco
Sentir junto ao meu seio teu coração bater!

Que seja a tua mão tão branda como a neve
Que feche meu olhar numa carícia leve
Num perpassar de pétala de lis...

Que seja a tua boca rubra como o sangue
Que feche a minha boca, a minha boca exangue!
Ah, venha a morte já que eu morrerei feliz!


Lisboa - Portugal, 20 de junho de 1916

Florbela Espanca 


ESPANCA, FLORBELA. Trocando Olhares. São Paulo: Martin Claret, 2009.

Comentários

  1. Que lindo, ola meu amigo, um poema com certeza excelente cheio de palavras devoradoras de um desejo quase que mortal.
    Um grande final de semana e um grande beijo .sol!

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  2. Obrigado minha amiga Sol.
    Sou muito suspeito de falar pois sou apaixonado por Florbela Espanca.
    Apenas a melhor poetisa da história da humanidade!
    Bjs...

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