Meu Anjo, Escuta - Gonçalves Dias



Meu anjo, escuta: quanto junto à noite
Perpassa a brisa pelo rosto teu,
Como um suspiro que um menino exala;
Na voz da brisa que murmura e fala
Brando queixume, que tão triste cala
No peito teu? Sou eu, sou eu, sou eu!

Quando tu sentes lutuosa imagem
De aflito pranto com sombrio véu,
Rasgado o peito por acerbas dores
Quem murcha as flores do brando sonho?
Quem te pinta amores dum puro céu?
Sou eu, sou eu, sou eu!

Se alguém te acorda do celeste arroubo,
Na amenidade do silêncio teu,
Quando tua alma noutros mundos erra,
Se alguém descerra ao lado teu
Fraco suspiro que no peito encerra;
Sou eu, sou eu, sou eu!

Se alguém se aflige de te ver chorosa
Se alguém se alegra com um sorriso teu,
Se alguém suspira de te ver formosa
O mar e a terra a enamorar o céu;
Se alguém definha por amor teu,
Sou eu, sou eu, sou eu!



Antonio Gonçalves Dias (1823- 1864)

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