Ninguém me Venha Dar Vida



Ninguém me venha dar vida,
que estou morrendo de amor,
que estou feliz de morrer,
que não tenho mal nem dor,
que estou de sonho ferida,
que não me quero curar,
que estou deixando de ser,
e não me quero encontrar,
que estou dentro de uma navio
que sei que vai naufragar,
já não falo e ainda sorrio,
porque está perto de mim,
o dono verde do mar
que busquei desde o começo,
e estava apenas no fim.


Corações, por que chorais?
Preparai meu arremesso,
para as algas e corais.


Fim ditoso, hora feliz:
guardai meu amor sem preço,
que só quis a quem não quis.




Cecília Meireles, in "Poemas" (1947).





Comentários

  1. Adoro este:

    A arte de ser feliz
    Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia
    ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
    Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto.
    Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando
    com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma
    espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para
    as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos
    magros e meu coração ficava completamente feliz.
    Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes
    encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que
    pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
    Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
    Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um
    galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar,
    cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.
    Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de
    cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem
    diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a
    olhar, para poder vê-las assim.

    Cecília Meireles

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